25 de Janeiro / O xiita gospel contra o mundo real.

Postado por: em jan 25, 2012 | 16 comentários

Vinte e cinco

Toda a produção cultural do nosso povo, dos religiosos aos ateus, nestes 500 anos de história, e não só daqui mas de todo o mundo, tem na seguinte certeza a  sua principal razão de ser:

“Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez”

(Salomão 950 A.C.)

 

É como se coubesse dentro do nosso coração toda a eternidade, o mundo inteiro morando dentro da gente. Milhares de hóspedes, ideias e  experiências, tudo é enigma e mistério; tudo se esvai e fica, tudo dura e passa apressado, mas nunca  passa sem nos deixar marcados. A eternidade dentro de nós dói à beça. Dói demais!

Está aí o principal motivo para qualquer produção cultural; a fome de céu, ou, o mundo inteiro que mora dentro de nós e que carece de luz pois é só escuridão. Vivemos tateando no escuro, buscando alguma forma de encontrar qualquer janela que ilumine o ambiente misterioso que é o nosso coração. Uma janela apenas já iluminaria tudo.

 

É por isso que passei a compartilhar aqui no Nossa Brasilidade as implicações culturais dessa nossa estrutura; já que toda cultura é uma forma de se posicionar diante desse mistério absurdo! Agora, passo a transcrever também o nosso repertório  de música popular.  Seguindo a mesma ótica.

 

Quantos artistas conseguiram olhar para dentro e encontrar a estranha ideia da eternidade, o anseio pelo porvir, a vontade da duração, o susto diante da grandeza das coisas! Todos eles, posso afirmar, não conseguem se livrar desse incômodo!

Alguns xiitas do movimento gospel, aqueles “defensores” de Deus que fizeram a leitura errada desse texto, achando que esse sopro divino estaria circulando apenas no coração do religioso [ou melhor, da sua religião], não admitem que fora das suas cercas existam homens que anseiam pela eternidade. Nenhuma novidade nisso. Vamos pra frente, dando razão ao que é real.

Sem extremismos ou mentiras apologéticas, fiquem agora com Roberto e Erasmo Carlos – a parceria mais bem sucedida da música popular brasileira:

 

 

Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe
É só fechar os olhos e olhar pra dentro de si mesmo

Tanta gente se esqueceu
Que a verdade não mudou
Quando a paz foi ensinada
Pouca gente escutou
Meu Amigo volte logo
Venha ensinar meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo

Outro dia, um cabeludo falou:
“Não importam os motivos da guerra
A paz ainda é mais importante que eles.
”Esta frase vive nos cabelos encaracolados
Das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
Dos pensamentos poluídos pela falta de amor.
Muita gente não ouviu porque não quis ouvir
Eles estão surdos !

Tanta gente se esqueceu
Que o amor só traz o bem
Que a covardia é surda
E só ouve o que convém
Mas meu Amigo volte logo
Vem olhar pelo meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo

Um dia o ar se encheu de amor
E em todo o seu esplendor as vozes cantaram.
Seu canto ecoou pelos campos
Subiu as montanhas e chegou ao universo
E uma estrela brilhou mostrando o caminho
“Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade”

Tanta gente se afastou
Do caminho que é de luz
Pouca gente se lembrou
Da mensagem que há na cruz
Meu Amigo volte logo
Venha ensinar meu povo
Que o amor é importante
Vem dizer tudo de novo

 

(Todos estão surdos Roberto Carlos – Erasmo Carlos)

17 de Janeiro / Cadê a poesia?

Postado por: em jan 17, 2012 | 5 comentários

Dezessete

 

A poesia está em toda parte.  Nos anúncios de jornal, nas frases de caminhão, nos muros da cidade, nas bancas de revista, em qualquer parte lá está ela dizendo o que meras palavras agrupadas na frente de outras não conseguiriam dizer. É certo que ela não está trancafiada naqueles famosos livros de poesia, que a muitos causa um certo medo. García Márquez – o fantástico criador de “Cem anos de solidão” –  disse da seguinte forma : “a ideia de que a ciência só concerne aos cientista é tão anticientífica como é antipoético pretender que a poesia só concerne aos poetas”.

Mas, é o poeta do povo, Patativa do Assaré, quem chega agora para comunicar uma verdade: que para fazer poesia não precisa ter diploma não doutor. Sua arte chegou às vistas de acadêmicos e varredores, tratou o romance, usou a rima, o verso livre, contou histórias e emocionou muita gente por esse mundo a fora, sem completar ao menos cinco meses de estudo.

 

Eu venho dêrne menino,

Dêrne munto pequenino,

Cumprindo o belo destino

Que me deu Nosso Senhô.

Eu nasci pra sê vaquêro,

Sou o mais feliz brasileiro,

Eu não invejo dinheiro,

Nem diproma de dotô.

(Trecho de O Vaqueiro – Patativa do Assaré)

Preciso chamar novamente o Nobel colombiano, Gabriel García Marquez. Ele vai citando alguns amigos das letras, no seu recente livro  “Eu não vim fazer um discurso”, e como encontravam poesia até em seção econômica ou página policial de periódicos daquela época, na xícara de café, na sopa… tantos lugares! “Daniel Arango achou-a num decassílabo perfeito, escrito com letras urgentes na vitrine de um armazém: ‘Liquidação total de tudo’.”

Onde encontrar a poesia? Talvez outro brilhante artista popular, nosso pernambucano  J.Borges, consiga nos dá uma pista de como deveríamos procurar por ela… Amanhã, tô de volta.

J.Borges "Maior artista vivo do nordeste"

16 de Janeiro / Para que serve poesia?

Postado por: em jan 16, 2012 | 4 comentários

        Dezesseis

Diálogo rápido e rasteiro: 

– Para que ficar falando de poesia em tempos difíceis como este, meu senhor? Enchentes em Minas, desabrigados no Espírito Santo, morte nos assentamentos, tudo um caos, tanta gente pedindo socorro e você com poesia?

– Devolvo a pergunta, nobre pensador: se um dia encontrássemos o mundo em completa paz – calmo e tranquilo como um grilo na beira de um rio – para que dedicar tempo e alma na leitura de um texto poético?

*

Voltamos! Se você não consegue responder  a segunda pergunta, jamais encontrará resposta para a primeira.

Sim! É verdade; essa tal dúvida de espíritos extremamente ‘práticos’ não é coisa nova. Eles fazem pouco caso daquilo que não esteja dentro da sua solidariedade e humanidade – o pensamento deles é: o que eu faço é sempre mais importante. No fundo eles estão apresentando uma hierarquia de tarefas urgentes e obviamente seus interesses aparecem no topo da lista. Literatura, poesia e arte só poderiam aparecer no nosso dia a dia quando todos os verdadeiros problemas da humanidade fossem resolvidos.

 

Lembrei de C.S.Lewis e o  seu instigante sermão  “aprendendo em tempos de Guerra”.

No outono de 1939, enquanto Hitler, bem perto dali, começava a destruir a Europa com sua praticidade ariana; veja o que o velho irlandês compartilhou com a sua  Igreja em Oxford:

“ O que estamos fazendo aqui a estudar filosofia e literatura medieval, enquanto a Europa está em guerra? Como podemos continuar com nossos interesses e nossas plácidas ocupações quando as vidas e as liberdade de nossos  irmãos europeus estão em perigo? Não estamos também tocando violino enquanto Roma se incendeia? Para um cristão, a grande tragédia de Nero não foi  que ele tocasse violino enquanto a cidade se queimava, mas que ele tocava diante do inferno.”

 Proust já disse: “um escritor contemporâneo tem tudo por fazer”. Isso não significa apenas que cada geração carece de escritores e que esses devem inventar sua própria linguagem, mas que toda geração precisa de novos leitores para novos escritores. Daí ser útil profetizar aos cegos que comecem a ver. Que seus olhos consigam scanear o mundo e traduzi-lo em palavras. Ou melhor, que esses consigam pegar suas palavras e subverter este mundo!

C.S. Lewis dá mais uma dica sobre o assunto:

“O MAIOR inimigo [do acadêmico em tempos de guerra] é a ansiedade – aquela tendência de pensar na guerra e senti-la quando, na verdade, o que pretendíamos fazer mesmo era pensar no nosso trabalho. A melhor defesa é reconhecer que nisso, como em outros aspectos, na verdade, a guerra não trouxe nenhum novo inimigo, apenas piorou o antigo. Sempre temos inúmeros inimigos no trabalho. Vivemos nos apaixonando e competindo, procurando um emprego ou com medo de perdê-lo, ficando doentes e nos recuperando, acompanhando escândalos públicos. Se nos deixarmos levar, estaremos sempre esperando o término de alguma distração ou outra para, então, nos concentrar no nosso trabalho. As únicas pessoas que alcançam êxito são as que querem tanto o conhecimento que insistem em buscá-lo mesmo em condições pouco favoráveis. Nunca temos condições favoráveis. É claro que há momentos em que a pressão da ansiedade é tão grande que só o autocontrole de um super-homem seria capaz de resisti-la. Esses momentos acabam chegando tanto na guerra quanto na paz. Precisamos fazer o melhor que conseguirmos. “

 

Tanto na guerra quanto na paz, desejo a você uma vida inteira (na íntegra) onde solidariedade ande de mãos dadas com o amor, a fé acompanhada pelo pão, a mesa cheia de amigos e de criatividade, onde não se desperdice nada. Mas que ainda sobre coragem pra gente despedacar toda idiotice e objetividade que empobrece a nossa existência.

Termino, relembrando o nosso primeiro poeta do Guia de Leitura Poética 2012: Mário Quintana.

 

Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela

abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

– para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

(Emergência )

 

 

 

 

14 de Janeiro / Antonio Vieira

Postado por: em jan 14, 2012 | 3 comentários

Sua influência ultrapassou sua época.

Quatorze

 Antonio Vieira comenta sobre a amizade no seu “Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma”  de 1670. O brilhante padre no mesmo parágrafo dá uma aula sobre o tema da semana, juntando filosofia, teologia e muita habilidade com as palavras – seu dom mais famoso. Vamos ouvi-lo.

 

“Nem deve passar sem advertência a repetição enfática, como que o Texto Sagrado depois de dizer: Assistebant coram Salomone , acrescenta: Patre ejus. Parece desnecessária esta nova expressão, pois de toda a narração da história contava ser Salomão Pai de Roboão. Mas foi nota e ponderação digníssima de se não dissimular, como de uma maior circunstância que notavelmente agrava o caso. Porque ainda que os Ministros de quem Salomão em sua vida se tinha servido junto a sua Pessoa, por serem Ministros do Rei mais sábio que teve o mundo, mereciam ser estimados, honrado e conservados no lugar que com ele tinham; só por serem Ministros de seu Pai (ainda que esse Pai não fora Salomão) se devia Roboão servir deles, e tê-los sempre junto a si, e fazer maior confiança da sua fidelidade, da sua verdade, do seu zelo e do seu amor, que do de todos os outros: Amicum tuum, et amicum patris tui ne dimiseris “Não abandones o teu amigo, nem o amigo de teu pai” Prov. 27:10: diz o Espírito Santo por boca do mesmo Salomão: o amigo que foi amigo de seu pai, não o apartes de ti. E que mais têm os amigos que foram amigos dos pais, do que os amigos novos e particulares dos filhos? Têm de mais aquela diferença que há entre o certo e o duvidoso. Os amigos novos que os filhos elegem, poderá ser que sejam bons e fiéis amigos; mas os que foram amigos dos pais, já é certo que o são, porque estes já estão experimentados e provados, aqueles ainda não. Até em Deus tem sua força esta consequência. Quando Deus apareceu a Moisés na Sarça, não sabendo ele quem era, disse-lhe: Ego Sum Deus Patris Tui: Eu sou o Deus de teu Pai: irás libertar o Povo e dir-lhe-ás, para que te dêem crédito, que o Deus de seus Pais te manda: Deus Patrum vestrorum misit me ad vos.  Queria-os libertar do cativeiro de Faraó, e para os assegurar deste grande benefício, não só disse que era Deus que o podia fazer, mas que era Deus de seus Pais, para que estivessem certos que o faria. Por isso disse sabiamente Sócrates, que os mais seguros amigos são os que se herdaram. A amizade dos que se fazem de novo é duvidosa, a dos que se herdaram, e vem de pais a filhos, certa. E daqui conclui este famosíssimo Filósofo: Liberos haeredes esse non modo facultatum, sed amicitiarum paternarum. Que os filhos não só são, e devem ser herdeiros da fazenda dos pais, senão também dos amigos. Se Roboão assim como herdou a Coroa, herdara também os amigos de seu Pai, ele não perdera o Reino; mas porque herdando o Reino, quis fazer novos amigos, eles o perderam.”

12 de Janeiro / Castro Alves pergunta: Deus, onde estás?

Postado por: em jan 12, 2012 | 9 comentários

Doze

 

Todos os dias, cerca de cem novos visitantes aparecem aqui no Nossa Brasilidade. Outros cem retornam para conferir o papo mais atual, na expectativa de continuar sendo surpreendidos pela verve de novos poetas que vão chegando aqui no sítio e tomando seu lugar nessa casa de boas palavras. Tudo por causa dos seus hóspedes, é claro! Porque o anfitrião aqui, com sinceridade, evita falar em hora tão importante; onde o povo santo – que sai dos Templos aos Domingos e vai avançando para as ruas – esboça o desejo de parar um pouco para ouvir os poetas e o que eles estão tentando declamar no meio do mundo.

 

O susto maior é quando, pela soberana providência, a língua de um se faz entendível ao outro. E assim, poeta mundano e  seguidor cristão vão reconhecendo seus pés sobre o mesmo chão da Vida; o real inevitável (e urgente) que pede da gente aquela Esperança.

 

Hoje não poderia ser diferente. Bem aqui neste nosso cantinho quem está falando agora é Castro Alves. Vamos ouvir um pedaço dessa conversa:

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

 

 (Vozes d’África – Castro Alves)

 

O texto completo  dessa oração do poeta baiano, que amplifica aos céus os gemidos africanos, intercedendo pelo escravos como um tipo brasileiro de profeta, você baixa aqui. Inevitável não ficar impressionado com a semelhança desse poema e uma canção que fiz em 2007 , antes de ler o “Albatroz” abolicionista – isso mesmo, 139 anos depois de Castro Alves, perguntei : “Deus, onde estás?”