05 de Fevereiro / Roberto Diamanso
Trinta e seis
Do álbum “Plantas e Habite-se” vem esta belíssima canção que vamos ouvir a seguir. Hoje o Nossa Brasilidade recebe a poesia, a sensibilidade e a economia lírica de Roberto Diamanso, cujos versos se apresentam sem desperdiçar palavras, sem deixar de nos surpreender com os sons dessa riqueza nordestina.
O fraseado modal é fluido e vai se sustentando em harmonia mansa, como um riachinho raso, límpido e largo no meio dessa barulheira semiárida que é a canção industrializada. Vamos respirar e apreciar essa paisagem que Diamanso criou. Aproveitem.
Nossos novos atos
(Letra e Música : Roberto Diamanso)
Que bons ventos o trazem amigo,
Que bom te ver por aqui.
Sim. São os bons ventos
O sopro pneuma, o ar.
Olá, com o ar de quem traz
Boas novas chegando por aqui.
Avia vai lá chamar os irmão,
Vamos armar nossa tenda
Na grama do jardim trazer
Nossas riquezas a uma mesma mesa.
E repartir, medir boa medida,
Recalcada, sacudida.
Dá, dá e dar-se-vos-á
Com a mesma medida que medirdes, medi.
(Vozes: Roberto Diamanso,Odilio,Jonathan,Márcia)
Para ouvir clique aqui: 02 Nossos Novos Atos
31 de Janeiro / Ariano Suassuna
Trinta e um
O brilhante Ariano Suassuna já está falando. Vamos ouvir:
MULHER
Ai, padre, pelo amor de Deus, meu cachorro está morrendo. É o filho que eu conheço neste mundo, padre. Não deixe o cachorrinho morrer, padre!
PADRE
comovido
Pobre mulher! Pobre cachorro!
João Grilo estende-lhe um lenço e ele se assoa ruidosamente.
PADEIRO
O senhor benze o cachorro, Padre João?
JOÃO GRILO
Não pode ser, O bispo está aí e o padre só benzia se fosse o cachorro do major Antônio Morais, gente mais importante, porque senão o homem pode reclamar.
PADEIRO
Que história é essa? Então Vossa Senhoria pode benzer o cachorro do major Antônio Morais e o meu não?
PADRE
apaziguador
Que é isso, que é isso?
PADEIRO
Eu é que pergunto: que é isso? Afinal de contas eu sou presidente da Irmandade das Almas, e isso é alguma coisa.
JOÃO GRILO
É, padre, o homem aí é coisa muita. Presidente da Irmandade das Almas! Para mim isso, é um caso claro de cachorro bento. Benza logo o cachorro e tudo fica em paz.
PADRE
Não benzo, não benzo e acabou-se! Não estou pronto para fazer essas coisas assim de repente. Sem pensar, não.
MULHER
furiosa
Quer dizer, quando era o cachorro do major, já estava tudo pensado, para benzer o meu é essa complicação! Olhe que meu marido é presidente e sócio benfeitor da Irmandade Almas! Vou pedir a demissão dele!
PADEIRO
Vai pedir minha demissão!
MULHER
De hoje em diante não me sai lá de casa nem um pão para a Irmandade!
PADEIRO
Nem um pão!
MULHER
E olhe que os pães que vêm para aqui são de graça!
PADEIRO
São de graça!
MULHER
E olhe que as obras da igreja é ele quem está custeando!
PADEIRO
Sou eu que estou custeando!
PADRE
apaziguador
Que é isso, que é isso!
MULHER
O que é isso? É a voz da verdade, padre João. O senhor agora vai ver quem é a mulher do padeiro!
JOÃO GRILO
Ai, ai, ai e a Senhora, o que é que é do padeiro?
MULHER
A vaca…
CHICÓ
A vaca?!
MULHER
A vaca que eu mandei para cá, para fornecer leite ao vigário tem que ser devolvida hoje mesmo.
PADEIRO
Hoje mesmo!
PADRE
Mas até a vaca? Sacristão, sacristão!
JOÃO GRILO
A vaca também é demais. (Arremedando o padre.) Sacristão, sacristão!
O Sacristão aparece à porta. É um sujeito magro, pedante, pernóstico, de óculos azuis que ele ajeita com as duas mãos de vez em quando, com todo cuidado. Pára no limiar da cena, vindo da igreja, e examina todo o pátio.
JOÃO GRILO
Sacristão, a vaca da mulher do padeiro tem que sair!
SACRISTÃO
Um momento. Um momento. Em primeiro lugar, o cuidado da casa de Deus e de seus arredores. Que é isso? Que é isso?
Ele domina toda a cena, inclusive o Padre que tem uma confiança enorme na empáfia) segurança e hipocrisia do secretário.
MULHER E PADEIRO
ao mesmo tempo, em resposta à pergunta do Sacristão
É o padre…
SACRISTÃO
afastando os dois com a mão e olhando para a direita
Que é aquilo? Que é aquilo?
Sua afetação de espanto é tão grande, que todos se voltam para direção em que ele olha.
SACRISTÃO
Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus?
PADEIRO
Morto?
MULHER
mais alto
Morto?
SACRISTÃO
Morto, sim. Vou reclamar à Prefeitura.
PADEIRO
correndo e voltando-se do limiar
verdade, morreu!
MULHER
Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.
Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó. Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz.
CHICÓ
É verdade, o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.
JOÃO GRILO
suspirando
Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia! Bonito, Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei.
CHICÓ
Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez. Foi no dia em que meu pirarucu morreu.
JOÃO GRILO
Seu pirarucu?
CHICÓ
Meu, é um modo de dizer, porque, para falar a verdade, acho que eu é que era dele.Nunca lhe contei isso não?
JOÃO GRILO
Não, já ouvi falar de homem que tem peixe, mas de peixe que tem homem, é a primeira vez.
CHICÓ
Foi quando eu estive no Amazonas. Eu tinha amarrado a corda do arpão em redor do corpo, de modo que estava com os braços sem movimento. Quando ferrei o bicho, ele deu um puxavante maior e eu caí no rio.
JOÃO GRILO
CHICÓ
Exatamente, João, o bicho me pescou. Para encurtar a história, o pirarucu me arrastou rio acima três dias e três noites.
JOÃO GRILO
Três dias e três noites? E você não sentia fome não, Chicó?
CHICÓ
Fome não, mas era uma vontade de fumar danada. E o engraçado foi que ele deixou para morrer bem na entrada de uma vila, de modo que eu pudesse escapar. O enterro foi no outro dia e nunca mais esqueci o que o padre disse, na beira da cova.
JOÃO GRILO
E como o avistaram da vila?
CHICÓ
Ah, eu levantei um braço e acenei, acenei, até que uma lavadeira me avistou e vieram me soltar.
JOÃO GRILO
E você não estava com os braços amarrados, Chicó?
CHICÓ
João, na hora do aperto, dá-se um jeito a tudo.
JOÃO GRILO
Mas que jeito você deu?
CHICÓ
Não sei, só sei que foi assim.
(O Auto da Compadecida – Ariano Suassuna)
30 de Janeiro / João Ubaldo Ribeiro
Trinta
Sou fã. Ponto. E quem não é? João Ubaldo Ribeiro, o pai do VJ da MTV Bento Ribeiro, é um gênio do nosso vernáculo. Ganhador dos mais importantes prêmios literários da nossa língua (Jabuti e Camões, por exemplo), sucesso de vendas e grande contador de histórias, ele chega aqui pra compartilhar parte do seu mais destacado livro: “Viva o povo brasileiro”. Chega mais perto e vamos ouvir:
“ Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carolo. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.”
(Viva o Povo Brasileiro, pág.94 e 95, João Ubaldo Ribeiro – 2009)
27 de Janeiro / A Lavoura de Luiz Fernando Carvalho – parte II
Vinte e sete
Segue agora a segunda parte do impressionante diálogo entre André e seu pai. Um tipo de retorno do filho pródigo, retirado da brilhante adaptação que Luiz Fernando Carvalho fez da obra Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar.
O diretor da minissérie Hoje é dia de Maria, recortou palavras, incluiu expressões, reinterpretou o texto original e produziu, assim, uma eletrizante cena, um reencontro entre pai e filho à mesa da família. Fez transparecer na arte a realidade de muitos lares (talvez o nosso), talvez o retrato da nossa história. Vamos acompanhar
“— O senhor não me entendeu, pai.
— Como posso te entender, meu filho? Existe obstinação na tua recusa, e isto também eu não entendo. Onde você encontraria lugar mais apropriado para discutir os problemas que te afligem?
— Em parte alguma, menos ainda na família; apesar de tudo, nossa convivência sempre foi precária, nunca permitiu ultrapassar certos limites; foi o senhor mesmo que disse há pouco que toda palavra é uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos.
— Não receba com suspeita e leviandade as palavras que te dirijo, você sabe muito bem que conta nesta casa com nosso amor!
— O amor que aprendemos aqui, pai, só muito tarde fui descobrir que ele não sabe o que quer; não passando hoje de uma pedra no caminho. O amor nem sempre aproxima, pai, o amor também desune; e não seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família não tem a grandeza que se imagina.
— Cale-se! Já basta de extravagancias! Seja simples!
— Não acho que sejam extravagâncias, se bem que já não me faz diferença que eu diga isto ou aquilo, mas como é assim que o senhor percebe, de que me adiantaria agora ser simples como as pombas? Se eu depositasse um ramo de oliveira sobre esta mesa, o senhor poderia ver nele simplesmente um ramo de urtigas.
— Nesta mesa não há lugar para provocações, deixe de lado o teu orgulho, domine a víbora debaixo da tua língua, não dê ouvidos ao murmúrio do demônio. Seja humilde, André, me responda como deve responder um filho! Seja claro como deve ser um homem!
— Se sou confuso…
— Acabe de uma vez com a confusão nessa sua cabeça!
— Se evito ser mais claro …
— Cale-se! Não vem desta fonte a nossa água, não vem destas trevas a nossa luz, não é a tua palavra arrogante que vai demolir agora o que levou milênios para se construir! Ninguém em nossa casa há de falar mudando o lugar das palavras, embaralhando as ideias, desintegrando as coisas numa poeira, pois aqueles que abrem demais os olhos acabam só com a própria cegueira. Ninguém em nossa casa há de padecer também de um suposto e pretensioso excesso de luz, capaz como a escuridão de nos cegar. Ninguém ainda em nossa casa há de dar um curso novo ao que não pode desviar, ninguém há de confundir nunca o que não pode ser confundido, a árvore que cresce e frutifica com a árvore que não dá frutos, a semente que tomba e multiplica com o grão que não germina! A nossa simplicidade de todos os dias com um pensamento que não produz. Por isso, dobre a tua língua! Nenhuma sabedoria devassa há de contaminar os modos da família! Não foi o amor, como eu pensava, foi o orgulho, o desprezo e o egoísmo que te trouxeram de volta à casa!
— “Chega, Iohána! Poupe nosso filho!” (entra a mãe, implorando com os olhos aflitos para o pai)
— Estou cansado, pai, me perdoe… ! Não trago o coração cheio de orgulho como o senhor pensa. Eu volto pra casa humilde e submisso. Não tenho mais ilusões, já sei o que é a solidão, eu já sei o que é a miséria. E sei também agora, que não deveria ter me afastado um passo sequer da nossa porta. De agora em diante serei como meus irmãos; me entregarei com disciplina às tarefas que me forem atribuídas, chegarei aos campos de lavoura antes que ali chegue a luz do dia, e só os deixarei bem depois de o sol se pôr. Farei do trabalho a minha religião, farei do cansaço a minha embriaguez. Eu vou ajudar a preservar nossa união, pai. Eu quero merecer de coração sincero todo o teu amor.
— Tuas palavras abrem de novo meu coração, querido filho. Sinto meus olhos molhados de alegria, apagando depressa a mágoa que você causou ao deixar a casa. Sinto uma luz nova sobre esta mesa; por um instante, cheguei a pensar que tinha semeado em chão batido, em pedregulho, ou ainda num campo de espinhos. Mas não… Amanhã vamos festejar aquele que estava cego e recuperou a vista! Agora vai descansar, meu filho. Meu filho querido.”
26 de Janeiro / A Lavoura de Luiz Fernando Carvalho
Vinte e seis
A primeira parte do diálogo entre filho e pai, dentro da Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho. Muito forte!
“
– Para que as pessoas se entendam é preciso que ponham ordem nas suas ideias: palavra com palavra.
– Toda ordem traz uma semente de desordem, e a clareza uma semente de obscuridade. Não é por outro motivo que falo como falo. Eu poderia ser claro e dizer, por exemplo, que nunca, até o instante em que decidi o contrário, tinha pensado em deixar a casa. Eu poderia ser claro e dizer ainda que nunca, nem antes e nem depois de ter partido eu pensei que pudesse encontrar fora o que não me davam aqui dentro.
– E o que é que não te davam aqui dentro?
– Queria o meu lugar na mesa da família.
– Foi então por isso que você nos abandonou? Porque não te dávamos um lugar à mesa da família?
– Jamais os abandonei, pai. Tudo o que eu quis ao deixar a casa foi poupar-lhes o olho torpe à custa de minhas próprias vísceras.
– O pão, contudo, sempre esteve à mesa, e nunca ninguém te negou o direito de sentar-se com a família; ao contrário, era o desejo de todos que você nunca estivesse ausente na hora de repartir o pão.
– Não falo desse alimento. Participar só da divisão desse pão pode ser em certos casos simplesmente uma crueldade; seu consumo só prestaria para alongar minha fome.
– Do que você está falando?
– Não importa?
– Você blasfema!
– Não, pai, eu não blasfemo. Pela primeira vez na vida eu falo como um santo.
– Você está enfermo, meu filho. Uns poucos dias de trabalho ao lado dos teus irmãos hão de quebrar o orgulho da tua palavra, te devolvendo depressa a saúde de que você precisa.
– Não me interesso pela saúde de que o senhor fala. Existe nela uma semente de enfermidade, assim como na minha doença existe uma poderosa semente de saúde.
– Esqueça teus caprichos, meu filho. Não há proveito em atrapalhar nossas ideias. Não afaste teu pai da discussão dos teus problemas.
– Não acredito na discussão dos meus problemas. Não acredito mais em troca de pontos de vista. Estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra.
– Conversar é muito importante meu filho. Toda palavra, sim, é uma semente.
– Ainda que eu vivesse dez vidas, os resultados de um diálogo pra mim seriam sempre frutos tardios quando colhidos.
– É egoísmo próprio dos imaturos pensar só nos frutos quando se planta. A colheita não é melhor recompensa para quem semeia; já somos bastante gratificados pelo sentido das nossas vidas quando plantamos; já temos nossa recompensa só em fruir o tempo largo da gestação; já é um bem que transferimos se transferimos a espera para gerações futuras.
– Ninguém vive só de semear, pai.
– Claro que não, meu filho. Se outros hão de colher do que semeamos hoje, estamos colhendo por outro lado do que semearam antes de nós. É assim que o mundo caminha, é esta a corrente da vida.
– Isso já não me encanta, eu sei hoje do que é capaz essa corrente, dos que semeiam e não colhem, colhem do que não plantaram. Desse legado, pai, eu não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo pra frente? Se já tenho minhas mãos atadas, não vou, por iniciativa, atar meus pés também. Por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem. Eu já não vejo diferença. Tanto faz que as coisas andem pra frente ou que elas andem pra trás.
– Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
– Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro. Da mesma forma, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto. Maior despropósito que isso, só mesmo a vileza do aleijão, que na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica meais feio o feio que consente o belo…
– Continue…
– Mais pobre o pobre que aplaude o rico; menor o pequeno que aplaude o grande; mais baixo o baixo que aplaude o alto. E assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam. Acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros. A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira.
– É muito estranho o que eu estou ouvindo.
– Estranho é o mundo, pai, que só se une se dessumindo. Erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente. Não há nada mais falso que o mérito, pai, e não fui eu que semeei essa semente.
– O que você quer dizer com tudo isso?
– Não quero dizer nada.
– Você está perturbado, meu filho.
– Não, pai, não estou perturbado.
– Então, de quem é que você estava falando?
– De ninguém em particular. Eu só estava pensando nos desenganados, sem remédio, nos que não são supérfluos nos seus gemidos; nos que gritam de sede, ardência e solidão. Era só neles que eu pensava.
– Quero te entender, meu filho, mas já não entendo nada.
– Eu sei que misturo as coisas quando falo; são as palavras que me empurram, mas estou lúcido, pai. E , se há farelo nisso tudo, tem também aí muito grão inteiro.
– Mas sonega clareza pro teu pai, filho.
– Já disse que não acredito na discussão dos meus problemas. Estou convencido também de que é muito perigoso quebrar a intimidade.
– É forte quem enfrenta a realidade. Depois, estamos em família, que só um insano tomaria por um ambiente hostil.
– Forte ou fraco, isso depende: a realidade não é a mesma pra todos. E, de minha parte, a única coisa que sei é que todo meio é hostil desde que negue direito a vida.
– Não há hostilidade nessa casa. Ninguém aqui te nega direito à vida. Não é sequer admissível que esse absurdo te passe pela cabeça.
– É um ponto de vista.
– Não é um ponto de vista! Eu e tua mãe vivemos sempre para vocês, o irmão para o irmão. Nunca faltou apoio da família a quem necessitasse.
– O senhor não me entendeu, pai.
– Como é que eu posso te entender, André? Existe obstinação na tua recusa, isso também entendo. Onde você encontraria lugar mais propício para discutir os assuntos que te afligem?
……”
(Lavoura Arcaica – Luiz Fernando Carvalho)







