A desaguar depois do movimento gospel: Mahmundi.
Ela está promovendo o reencontro do som com a dança. Atualizando os anos 80 pra nossa geração – que igual a ela – viveu a infância em década tão famosa pelos sintetizadores, danceterias e roupas bregas.
Antes da indústria já existia a fé, a religião, a igreja e a música.
Isso que vamos ler agora é a descrição de um hábito familiar. Estabelecido no período colonial (sec. XVI a XVIII), principalmente nos tempos onde se formou o sistema econômico em volta da casa-grande, com seus senhores de engenho polígamos e católicos. O que Gilberto Freyre – insubstituível mestre – nos informa aqui, faz a gente voltar às raízes da nossa cultura e constatar que a temática religiosa não era coisa só da missa ou dos poetas eclesiásticos: a fé chegou na casa dos brasileiros, virou letra para o som das cantigas e antes do que a gente imaginava já se cantava pra Deus, pra Jesus, para os santos e pra Maria. Olha, bem antes dos hinos protestantes desembarcarem nos portos. Bem antes da vitrola, bem antes da indústria – que indústria!? – não havia nada disso. Mas já existia a fé, a religião, a igreja e a música.
Quem sabe isso ajuda a clarear o que já falei por aqui: a fé não é invenção de um movimento industrial [gospel, carismático, auto-ajuda, místico, etc]. Se antes da industrialização já se cantava assim, depois dela como será? Bem, isso é coisa que temos proseado neste quintal …
Enquanto isso, vamos ler, este que dispensa apresentações, Gilberto Freyre:
“Nas cantigas de acalanto portuguesas e brasileiras as mães não hesitaram nunca em fazer dos seus filhinhos uns irmãos mais moços de Jesus, com os mesmos direitos aos cuidados de Maria, às vigílias de José, às patetices de vovó de Sant’Ana. A São José encarrega-se com a maior sem-cerimônia de embalar o berço ou a rede da criança:
Embala, José, embala,
que a Senhora logo vem:
foi lavar seu cueirinho
no riacho de Belém.
E a Sant’Ana de ninar os meninozinhos no Colo:
Senhora Sant’Ana,
ninai minha filha;
vede que lindeza
e que maravilha.
Esta menina
não dorme na cama,
dorme no regaço
da Senhora Sant’Ana.
E tinha-se tanta liberdade com os santos que era a eles que se confiava a guarda das terrinas de doce e de melado contra as formigas:
Em louvor de São Bento
que não venham as formigas
cá dentro.
escrevia-se num papel que se deixava à porta do guarda-comida. E em papéis que se grudavam às janelas e às portas:
Jesus, Maria, José,
rogai por nós que recorremos a vós.
Quando se perdia dedal, uma tesoura, uma moedinha, Santo Antônio que desse conta do objeto perdido. Nunca deixou de haver no patriarcalismo brasileiro, ainda mais que no português, perfeita intimidade com os santos. O Menino Jesus só faltava engatinhar com os meninos da casa; lambuzar-se na geleia de araçá ou goiaba; brincar com os moleques. As freiras portuguesas, nos seus êxtases, sentiam-no muitas vezes no colo brincando com as costuras ou provando dos doces.
Simonami / Jóia pra Alegria
Eu sou fã. Já disse outras vezes: eles conseguiram falar com doçura e espontaneidade do nosso cotidiano sem cair naquele fantástico mundo de Bobby. Estão aí cantando a Graça. Sim meu amigo, aí estão: Liu, Nane, Shandelle, Fernanda e Jean Costa dando um jóia pra Alegria.
Gravado no Asilo São Vicente de Paula, Curitiba – PR
Quer + , entre aqui.
Moacyr Felix – Ladainha
1962. O Violão de Rua incomoda. Cinquenta anos depois estou aqui. 2012. Lendo o seguinte poema, consigo sentir a dor da repressão, a angústia de um irmão revoltado com a religiosidade infértil de sua época e enojado com o capitalismo imperialista e feroz. Posso ver a reprodução de um Nietzsche em tom dramático e panfletário, um som áspero, uma grande dor, um retrato das vísceras de um cara como eu e você no meio de um vendaval. Lá no meio dele, o poeta faz sua confissão de fé. A sua dor profunda o impediu de ver a Vida no meio do redemoinho? Cadê a Esperança? Que oração é essa?
LADAINHA
Elisabeth é puta
Madeleine é puta
Maria dos Anjos é puta
O verbo ter é o verme do mundo
Van Gogh ficou louco
Hoelderlin ficou louco
Zé da Silva ficou louco
O verbo ter é a prisão do homem
Maiakovski se matou
Garcia Lorca foi assassinado
Cristo morreu na cruz
Antônio morreu na guerra
Tião Pedreira, na polícia
O verbo ter é a morte de Deus
O Mundo está podre
O verbo ter é o verme do mundo
O Homem está prêso
O verbo ter é a prisão do homem
Deus está morto
O verbo ter é a morte de Deus
Tem gente com fome
Deus está morto
Tem gente com frio
Deus está morto
Tem gente com sede
Deus está morto
A noite é longa como um grito
O Homem está prêso
A noite é longa como o desespero
O Homem está prêso
A noite é longa como o ódio
O Homem está prêso
O dia é deserto como o lobo na estepe
O Mundo está podre
O dia é pesado como um túmulo antigo
O Mundo está podre
O dia é alegre como um copo que quebra
O Mundo está podre
Alugam-se! médicos
advogados
e arquitetos
Tem gente com fome
Tem gente com frio
Tem gente com sede
Alugam-se! poetas
e bênçãos sacerdotais
A noite é longa
A noite é longa
A noite é longa
Alugam-se! môças para casar
amizades
e boas maneiras
O dia é deserto como o lobo na estepe
pesado como um túmulo antigo
alegre como um copo que quebra
ORAÇÃO
O Mundo está podre
O Homem está prêso
Deus está morto
O Mundo é eterno
e as manhãs do mundo vencerão a treva
O Homem é eterno
e a liberdade será o coração dos homens
O Amor é eterno
e a orquestração da vida pairará sobre as águas
per omnia secula sculorum Amém.
( Ladainha – Moacyr Felix in Violão de Rua Vol.II )
[ Moacyr Felix, poeta carioca, marxista, escritor, editor, diretor de importantes coleções de poesia pela Civilização Brasileira, sonhava com a liberdade, contribuiu direta e indiretamente em movimentos importantes como os da Teologia da Libertação, leu, ele próprio, para os tripulantes da espaçonave Myr, na órbita da Terra, um de seus poemas, transmitido em russo para toda a União Soviética, apoiou o impeachment do presidente Collor, ganhou o prêmio Jabuti em 2000 pelo livro “Introdução a Escombros”, morreu em 2005 aos 79 anos de idade]
Arnaldo Antunes / Sobre a origem da poesia
Sobre a origem da poesia
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem “maçã vermelha”, “água boa”, “cavalo veloz”; em vez de “a maçã é vermelha”, “essa água é boa”, “aquele cavalo é veloz”. Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em “Marxismo e Filosofia da Linguagem”) “o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada ‘complexidade’ do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc”. Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Arnaldo Antunes – Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo [italicos e grifos deste mero informante, Marcos Almeida]


