Jorge Ben Jor e Jesus Cristo numa música do mundo.

Postado por: em fev 23, 2013 | 10 comentários

 

Foi assim. Meu amigo Ricardo lá de João Pessoa tem um amigo super ligado na música do futuro e do passado, uma verdadeira enciclopédia musical. Pois bem, o cara – como sempre – traz coisas muito legais para o Ricardo. Não foi diferente dessa vez; apresentou o Matthew E. White com a canção Brazos. Lá no encarte do disco, o compositor, produtor, arranjador e fundador da Spacebomb Records, escreve que nesta canção fez uma referência ao Jorge Ben Jor, especificamente a Brother de 1972. Apreciem o som, a confissão e a mistura dessas duas obras. Voltarei para comentar.

 

 

Brazos (Matthew E. White 2012)

Wade across the Brazos
Walk the water like Jesus
They’re gonna come from all directions tonight
And baby we ain’t got no home
Here today and tomorrow we’re gone
But you look beautiful by the fireside

Child, we ain’t from this world
The whole thing, it cause my heart to moan
Babe, we are strangers in this land
They say that white folks are never lazy
They say that white folks are never lazy
They say that white folks are never lazy
Then baby, what are we doing here?
Then child, what are we doing here?

Take it easy, baby
Take it easy, baby
Take it easy, baby, tonight

My heart’s sinking like apostle Peter
Lord, sunk like a stone because he wasn’t a believer
And I’m not sure that I am either
Child, I’m just not sure
They say
In the kingdom there’s no sun to burn
In the kingdom there’s no cracker to hurt you child
In the kingdom there’ll be no slavery
Baby, do you think that’s true?
Child, do you think that’s true

Take it easy, baby
Take it easy, baby
Take it easy, baby, tonight

Wade across the Brazos
Walk the water like Jesus
We’re going to need the Lord’s help tonight
My body is a-bending low
Underneath life’s crushing blow
Golden hours come swiftly on the wing
Stand beside me baby, won’t you hear the angels sing?
Child, won’t you hear the angels sing?
Stand beside me baby, won’t you hear the angels sing?
Child, won’t you hear the angels sing?
Baby, won’t you hear the angels sing?

Jesus Christ is our Lord
Jesus Christ, He is your friend
Jesus Christ is our Lord
Jesus Christ, He is your friend

 

 

A letra desta beleza que você ouviu, não se encontra no site oficial de Jorge Ben Jor. Curiosamente, todas as outras letras do disco estão lá. Minha suspeita de que as biografias dos nossos artistas foram e estão sendo censuradas por motivos ideológicos parece fazer algum sentidoSobre o site ainda, mais curioso é descobrir que a partitura da música foi publicada e pode ser baixada e impressa. Mas, estamos no séc. XXI onde tudo cai na Rede, tudo se conecta, tudo se comunica e nem precisei do Assange. Aqui está, senhoras e senhores, Brother!

Brother  (Jorge Ben 1972)

Brother, Brother, Prepare one more happy way for my Lord
With many love and flowers, and music, and music

Brother, Brother, Prepare one more happy way for my Lord
With many love and flowers, and music, and music

Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend
Jesus Christ is my Lord, and Jesus Christ is my friend

Brother, Brother, Prepare one more happy way for my Lord
With many love and flowers, and music, and music

Brother, Brother, Prepare one more happy way for my Lord
With many love and flowers, and music, and music

Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend
Jesus Christ is my Lord, and Jesus Christ is my friend

Brother, Brother, Prepare one more happy way for my Lord
With many love and flowers, and music, and music

Brother, Prepare one more happy way for my Lord (sweet Jesus!)
Brother, Prepare one more happy way for my Lord (sweet Jesus!)
Brother, Prepare one more happy way for my Lord

Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend (sweet Jesus!)
Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend (Come body brother!)
Jesus Christ is my Lord, Jesus Christ is my friend…

A música do Jorge Ben já havia aparecido aqui nas pesquisas que faço dentro do nosso repertório popular. Ela também entrou na playlist do Palavrantiga, que usamos antes e depois do show, quando não estamos no palco.

Exemplos como “Brother” (Jorge Ben), “Dê um rolê” (Moraes Moreira), “Minha Festa” (Nelson Cavaquinho), ‘Todos estão surdos” (Roberto Carlos) já publicadas aqui no Blog,  também confirmam minha teoria de que não devemos usar a confissão do compositor para definir genero musical. Porque do contrário, Jorge Ben curiosamente seria, nesse caso, transformado no mais novo artista gospel do Brasil.

Está aí um nó conceitual. Não existem parâmetros para tratar as confissões “cristãs” fora do ambiente evangélico ou religioso.  Ninguém nunca me mostrou, por outro lado, as tais categorias musicais para definir uma música sacra contemporânea brasileira – estão aí, mas nenhum de nós sabe dizer onde. A preguiça intelectual prefere chamar tudo que é confissão evangélica de gospel. Confissão não válida no caso de Jorge Ben.

Consigo ouvir daqui alguns pensamentos de amigos preguiçosos: não mexe com esse assunto, tá dando certo até agora, pra que pensar nisso (?). Mas aí ficam com o nó na cabeça quando se ouve lá fora, “no mundo”, expressões tão evangélicas como essa de Jorge Ben Jor, devoto de São Jorge, cantando Jesus Christ is my Lord! No caso dele, repito, a confissão não é suficiente para classificá-lo como gospel. Que coisa! Ambiguidades. Preguiça de almoço ao sol do meio dia. Contradições.

Então, chupa essa manga, produtores, jornalistas, blogueiros, gravadoras, lojistas e ouvintes!

 

1. Não existem parâmetros para tratar as confissões “cristãs” fora do ambiente evangélico ou religioso.

2. Ninguém nunca  mostrou as categorias musicais para definir uma música sacra contemporânea brasileira – estão aí, mas nenhum de nós sabe dizer onde.

3. Brother” (Jorge Ben), “Dê um rolê” (Moraes Moreira), “Minha Festa” (Nelson Cavaquinho), ‘Todos estão surdos” (Roberto Carlos) confirmam minha teoria de que não devemos usar a confissão do compositor para definir genero musical.

 

Quem tiver um pouco de discernimento, logo vai perceber que a nova geração de artistas cristãos, ao abandonar a terminologia de grife “Gospel” para denominar essa nova música feita por nós, já está resolvendo muitas dessas contradições! Então, prossigam: mostrem os parâmetros musicais para definir gênero musical e deixem a teologia cuidar dos assuntos teológicos.

 

Giovani Malini e Rafael Rocha: o Duoleiro.

Postado por: em fev 16, 2013 | 1 comentário

Malini é responsável pelos arranjos de sopros de “Sobre o Mesmo Chão”, sua jornada começou na MPB, se graduando em guitarra no Instituto Tecnológico de Osasco. Na Gama Filho, Rio de Janeiro, fez sua pós-graduação propondo um currículo para o ensino superior de música. Mestre de muitos no Espirito Santo, agora se lança no instigante caminho da composição junto com Rafael Rocha.

O Rafa faz bacharelado em trombone na FAMES e tem feito um lindo trabalho com o grupo instrumental Brasilidade Geral – muito bom, aliás. Ainda falo dele aqui. Aproveite aí!

Hermano Vianna fala ao Estadão sobre cultura brasileira

Postado por: em fev 15, 2013 | 11 comentários
Ivan Marsiglia, de O Estado de S. Paulo
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Com a sua peculiar estridência, a assim chamada “nova classe média” ocupa, além de aeroportos e manchetes de economia, o centro da cena cultural brasileira. É o carnaval do Ai se eu te Pego, do tchererê-tche-tchê, da Beyoncé paraense Gaby Amarantos, da redenção do funk carioca e também da tragédia da Gurizada Fandangueira. Nessa explosão de sentidos figurados e literais, que marcas deixarão impressas na cultura nacional os cerca de 40 milhões de “ex-pobres” – na jocosa definição de MC Papo – que ascenderam ao mercado na última década?

Na opinião do antropólogo Hermano Vianna, antes de mais nada vale a pena remeter para a discussão da cultura a crítica feita pelo ex-presidente FHC ao termo nova classe média. “Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses”, diz o irmão mais velho do guitarrista Herbert Vianna, dos Paralamas, e um dos mais importantes pesquisadores musicais do País. “O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira ainda não analisada devidamente.”

Aos que denunciam um suposto empobrecimento geral das manifestações artísticas no País, o doutor em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – que também é consultor do programa Esquenta!, de Regina Casé, na Globo -, lança mão de uma metáfora, a do disco voador: trata-se de um olhar que sobrevoa o País sem conexão com o mundo de baixo que agora penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes. E reedita, em tom de provocação, a enfática defesa que faz há anos da música mais popular dos morros cariocas. “Encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade.”

Na última década, o Brasil vive a ascensão de uma nova classe média e a chamada inclusão pelo consumo. De que forma essa transformação se expressa no âmbito da cultura?

Em seu artigo de domingo passado no Estado, Fernando Henrique Cardoso escreveu que “a dissolução do conceito de classes em ‘categorias de renda’ chamadas classes A, B, C, D, ou nesta ‘nova classe média’, dificilmente se sustenta teoricamente”. Falou mais como sociólogo do que como ex-presidente ou político da oposição. Eu, como antropólogo, orientando de Gilberto Velho – por sua vez orientando de Ruth Cardoso, corajosa o suficiente para, durante a ditadura militar, aceitar que Gilberto fizesse tese sobre o consumo de drogas entre jovens da velha classe média -, posso afirmar que tal dissolução também não se sustenta culturalmente. Quando dizemos “nova classe média” estamos pensando num grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de vida e visões de mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses, etc. O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira, ainda não analisada devidamente.

Em que termos falta analisá-la?

Ela não é apenas uma transformação econômica. Aconteceu ao mesmo tempo em que outras mudanças profundas se processavam. Na cultura, as consequências da revolução digital foram imediatas. O modelo de negócios da “indústria cultural”, que funciona na base do broadcast, poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se adaptar ao mundo das redes, muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das gravadoras de discos, que comandava o mercado mundial de música popular, praticamente desmoronou. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem precisar de rádio, imprensa, TV. Em 2006, quando escrevi o texto para lançamento do programa Central da Periferia, na Globo, deixei claro: somos a mídia de massa correndo atrás da música mais popular nas ruas brasileiras que nunca esteve na TV antes. Descrevi a grande mídia como um disco voador, sobrevoando o País, sem conexão com o mundo “de baixo”. De lá para cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego), amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes.

O sr. quer dizer que há um incômodo com a democratização da cultura?

O melhor texto sobre isso é o do Otávio Velho dizendo que não há mais grotões no Brasil. Ele criticava a opinião de que os votos que elegeram Lula vinham de grotões ignorantes e sem conexão com a realidade contemporânea. Quem não viaja pelo interior não deve se dar conta disso. Quando piso em qualquer biboca, longe das capitais, logo encontro grupos articuladíssimos, tocando projetos sociais e culturais muitas vezes com repercussão internacional. E há também uma politização geral nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não tem lugar definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa à vida político-partidária, parte do “disco voador”, e produziu importantes organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O pop periférico e a politização cultural periférica – que não mantêm relações harmoniosas entre si – são as principais novidades culturais brasileiras das duas últimas décadas.

E as políticas de cultura do País, estão dando o melhor a essa população ou apenas reforçando estereótipos?

Políticas de cultura não devem “dar” nada para a população. Isso se parece com promessa velha de político acostumado ao ar condicionado no disco voador: “Vou levar cultura para as favelas”. A imagem tradicional era a favela como vazio cultural que devia ser iluminada com arte de fora. Os próprios favelados já deram a resposta: “Qual é, mané, o que não falta aqui é cultura”. As políticas de cultura, então, precisam trabalhar junto com o que já acontece em cada lugar, possibilitando uma melhor circulação de informações e contribuindo para ampliações de horizontes de maneiras de fazer arte, que foram criadas muitas vezes aos trancos e barrancos (ou dentro de barracos). Outro dia vi um censo cultural realizado com jovens de áreas “ex-pobres” – expressão inventada pelo MC Papo, rei do reggaeton mineiro – do Rio revelando uma maioria absoluta que nunca tinha ido a um show musical. Conheço bem as áreas onde a pesquisa foi aplicada e sei que essa rapaziada frequenta baile funk com muitas apresentações ao vivo. Aquilo não é considerado show musical? Por quem, o pesquisador ou o pesquisado? Show musical é o quê? Só o que acontece no Citibank Hall?

O sr. foi um defensor dos CEUs e dos Telecentros da então prefeita Marta Suplicy. O que achou do Vale Cultura, apresentado pela agora ministra?

O Vale Cultura não foi inventado pelo ministério Marta. Tem longa história de formulação e debate, anterior até à data de 2009, quando foi para o Congresso. Na época, o então ministro Juca Ferreira já precisou atacar a opinião de que o dinheiro “não deveria ser usado em baile funk”. Juca seguiu o pensamento de Gilberto Gil, que numa de suas melhores frases como ministro disse: “Cultura ruim também é cultura”. É isso, não tenho o que acrescentar porque sei que Gil e Juca sabem que funk não é cultura ruim. Gil até já cantou, em declaração de amor para o Rio, “quero ser teu funk”.

Então o sr. concorda com a resposta da ministra aos críticos do Vale Cultura: ‘Se quiser comprar revista de quinta categoria, pode’ e ‘compra porcaria quem quiser’?

É engraçado: quando a política deixa o mercado decidir como o incentivo vai ser usado, é acusada de sustentar cultura de mercado com dinheiro público. Quando quer corrigir “distorções do mercado”, como o fato de a região Sudeste acabar com a maior porcentagem do dinheiro da Lei Rouanet, é acusada de dirigismo cultural. Parece que todos preferem o imobilismo – que o ministério não proponha política nenhuma. Não morro de amores pelo Vale Cultura, mas encaro sua implementação como uma experiência. Por que, de antemão, achar que ele vai ser usado só em porcaria? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São Paulo?

A ida de Juca Ferreira, um baiano, para a Secretaria de Cultura paulistana de Fernando Haddad, lhe agradou?

Confesso que fiquei surpreso. Estamos acostumados a pensar a política estadual ou municipal de forma paroquial, como se só os locais pudessem lidar com realidades locais. Então foi surpresa boa: uma pessoa de fora pode descobrir maneiras novas para resolver velhos problemas já naturalizados pelos nativos. Mesmo quando entende as coisas de forma errada. Lembro a descoberta do tropicalismo pelos críticos estrangeiros nos anos 1990: eles falaram muita besteira, não captavam as sutilezas do nosso contexto, terrivelmente complexo para gringos. Mas aquilo me fez entender nosso passado musical com novos olhos, e tudo ficou ainda mais interessante. Espero que o mesmo aconteça com o diálogo entre o baiano Juca e os paulistanos, que sempre souberam acolher bem os baianos, a ponto de ninguém poder dizer com certeza se o tropicalismo é baiano ou paulistano. Mandei até uma sugestão, de que uma das primeiras ações do novo secretário deveria ser um encontro com a grande comunidade do samba paulistano.

E como vai a cultura em sua cidade, o Rio?

No Rio acontecem outras surpresas: uma pessoa de fora, o gaúcho Beltrame, impulsionou o projeto das UPPs. Por anos fui defender o funk e a possibilidade de realização dos bailes na Secretaria de Segurança – já que a Secretaria de Cultura nunca se pronunciava. Hoje, há uma nova era de projetos culturais. Bom sinal para a cidade, que agora, pós-tragédia em Santa Maria, terra do Beltrame, percebe como as coisas estavam descontroladas. Havia a tal da Resolução 013 que era sempre usada por policiais quando queriam fechar um baile. Tudo podia ser motivo: falta de saídas de emergência, banheiros, isolamento acústico, etc. Agora sabemos que mesmo os espaços culturais da prefeitura ou do Estado funcionavam contrariando regras de segurança. Por que só os bailes eram fechados?

E o carnaval? Nessa semana de exaltação e júbilo país afora, temos o que comemorar?

Este carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano. Ela é Top, do paulistano MC Bola, é a música mais tocada no rádio em Salvador, com versão bem local. Essa é a brincadeira musical preferida atualmente: os sucessos ganham versões em todos os ritmos do momento. E os estilos se misturam. Quem diria que o sertanejo iria virar música de balada? Quem diria que Campo Grande, Mato Grosso do Sul, iria se transformar na capital do pop brasileiro? Eu não entendia muito bem o mundo do sertanejo. Até que fui numa festa de fundo de quintal, bem familiar, em Campo Grande. Uma dupla tocava canções que eu nunca ouvira antes e todo mundo fazia coro, com emoção tão explosiva quanto no momento mais animado do bumbódromo de Parintins. Foi minha rendição: gosto de pop fake, mas também não resisto diante da autenticidade. Naquele momento, gostei por motivos antropológicos, o que me encantava era o amor que aquelas pessoas sentiam por aquela música. Estava claro que algo grande iria acontecer dali. Hoje gosto também por motivos musicais. Mas há outro aspecto interessante nessa brincadeira, que é bem mais que música. Ninguém, nem mesmo o fã mais “inculto”, acha que Ai se eu te Pego é um clássico de Tom Jobim. Aquilo é outra coisa: um mote para festa, para animação coletiva. Começou com uma cantoria de meninas paraibanas viajando para a Disney, virou refrão para animar turistas em Porto Seguro e depois forró em Feira de Santana. Michel Teló transformou o resultado em canção pop, que já foi apropriada em vídeos em todo o planeta, como Gangnam Style. O que importa aí é o processo, a diversão agora, o riso solto, e não a obra-prima para ser venerada como fuga de Bach. É preciso julgar as duas coisas com critérios diferentes.

O sr. parece otimista, mas há alguns dias o sambista Zeca Pagodinho criticou o carnaval no Rio, disse que ‘tudo foi roubado’ e não se vê mais nem enfeites nas ruas de periferia. Sambas-enredo falam de países distantes e cavalos manga-larga por exigência de patrocinadores. E até o elogiado renascimento dos bloquinhos de rua, em contraponto ao megashow mercantilizado do sambódromo, já é promovido por marcas de cerveja. A massificação põe em risco a riqueza da festa?

O carnaval é uma festa moderna, que cresceu mesmo a partir do final do século 19. O primeiro desfile de escola de samba aconteceu em 1929, e o patrocínio dos jornais foi importante para sua popularização e “oficialização”. Antes era algo menor no calendário cultural do Rio. A grande festa da cidade era o Divino, que ocupava o Campo de Santana durante várias semanas. Desapareceu. Nem por isso o Rio deixou de ser o Rio. Tudo muda. E muitas novidades importantes têm origem em desrespeito a tradições. O baiano Hilário queria botar seu terno de Reis nas ruas cariocas. Notando que o 6 de janeiro não era dia de folia no Rio, resolveu sair no carnaval. Deu nos ranchos, nas escolas de samba e assim por diante. Se fosse fiel às regras tradicionais, a cultura da cidade hoje seria bem diferente. Eu adorava o carnaval no Centro do Rio no início dos anos 80. Cacique de Ramos e Bafo da Onça desfilavam gigantescos, empolgadíssimos. Aquilo foi minguando, melancolicamente. Houve ano que não escutei nenhum som de blocos na rua. Hoje há cada dia mais blocos, cada vez maiores. A garotada carioca, de todas as classes, voltou a ter no carnaval sua melhor festa. Você não gosta de blocos comerciais? Não se preocupe, há muitos outros que fogem do comércio. Neste ano vai ter até bloco que só canta marchinhas baseadas em tragédias gregas.

Há quem veja, no entanto, um empobrecimento nas manifestações artísticas de hoje, especialmente se lembrarmos do samba de raiz de Cartola e Pixinguinha, por exemplo. Não há em seu discurso uma certa correção política que impede a crítica?

Cito mais uma vez Gil: raiz para mim só de mandioca. Samba é música moderna, criada no início do século 20, inclusive com a invenção de instrumentos novos, como o surdo, criado a partir de tonéis industriais. Tudo muda, o tempo todo. Ficou mais pobre? A partir de que critério? Sei que o relativismo está fora de moda. Nem ligo: sou relativista incorrigível, cada vez mais radical. Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona: “Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas”. Não tem quem me convença que há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. É vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial sem futuro.

A que servem iniciativas suas como o programa Esquenta!, com Regina Casé?

Antes de qualquer outra coisa queremos fazer uma boa festa. Nas gravações do programa, os momentos que mais nos agradam são quando a plateia assume o controle e viramos espectadores da farra coletiva. Como em qualquer outra festa boa, para isso acontecer é preciso reunir gente que pensa diferente e não tenha preconceito diante das diferenças. Reunião só com gente que pensa igual não tem graça.

O Brasil deveria apostar num programa de inclusão social pela cultura?

Detesto a palavra inclusão por motivos que já comentei nas respostas anteriores: parece que a salvação do excluído – que não tem nada, é um vazio a ser preenchido por bom conteúdo – está na sua captura por um mundo que não é dele, não sua transformação em Outro. Partindo dessa premissa, a política cultural já seria de grande valor se não atrapalhasse o que já existe. O governo tem enorme dificuldade para criar e implantar política cultural. Mas política anticultural é corriqueira. Como a proibição dos bailes funk quando a música estava nascendo, empurrando-a para dentro de morros controlados pelo tráfico armado. O “funk proibidão” foi produto dessa ação anticultural do poder público.

 

[FONTE: estadao.com.br ]

João Bosco canta “Minha Festa” de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Postado por: em jan 23, 2013 | 2 comentários

Guilherme de Brito e Nelson do Cavaquinho

Parceria das mais importantes para o samba, os boêmios Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito criaram canções inesquecíveis. Continuando o nosso curso “o que eles têm feito para buscar a paz”, vamos ouvir mais uma pérola.  Tente pensar: como a espiritualidade e a transcendência aparecem no repertório popular?  Como canções populares apresentam Deus?  Por que canções desse tipo nascem fora do ambiente religioso e apontam para a Boa Nova? Música de bar que já foi tocada no altar. Saída da rua sugerindo a graça. Ouçam: Minha Festa.

 

 

 

 

Minha Festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito – 1973)

La, lalaia laia laia,

lalaia laia laia, lalaia laia laia, ia

Graças a Deus minha vida mudou
Quem me viu, quem me vê, a tristeza acabou
Contigo aprendi a sorrir
Escondeste o pranto de quem sofreu tanto
Organizaste uma festa em mim
É por isso que eu canto assim

La, lalaia laia laia,

lalaia laia laia, lalaia laia laia, ia

 

 

Gal Costa canta “Deus é o amor” de Jorge Ben Jor.

Postado por: em jan 22, 2013 | Nenhum comentário

 

Um pergunta generosa deve guiar o nosso olhar: “o que eles têm feito para encontrar a paz?” Apresento a vocês Gal Costa cantando “Deus é o amor” de Jorge Ben Jor.

 

Em 1969 ela lançava essa canção em seu primeiro disco solo. A capa se tornou clássica:

 

 

Gal 1969 - lança "Deus é o amor" de Jorge Ben

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ouça a versão original e agora pergunte: “o que nós temos feito para encontrar a paz?”.

 

Deus é amor (Jorge Ben Jor 1968)

Todo mundo vai embora
Mas a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho vou me molhar

Mas eu tenho fé
Que a chuva há de passar
E aquele sol tão puro
De manhãzinha bem quentinho há de chegar

E os passarinhos vão cantar
Pois a alegria vai voltar
E todo mundo
Que foi embora vai voltar

Agradecendo a Deus
Todo mundo vai rezar e cantar

Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade
Deus é a vida, a luz e a verdade
Deus é o amor, a confiança e a felicidade