Jorge Ben  quer salvar velhos, flores, criancinhas e cachorros

Jorge Ben quer salvar velhos, flores, criancinhas e cachorros

Quando a mística de Jorge Ben se chocou com o cotidiano.   A série “símbolos da espiritualidade na MPB” é retomada para apresentar uma canção do hit maker Jorge Ben Jor. Se você chegou agora, precisa saber que há alguns meses falamos das cem canções presentes na famosa lista que a revista Rolling Stone fez em 2007; […]

Se uma profissão existe é porque tem alguém precisando dela

Postado por em ago 7, 2014 | Sem comentários

“Se uma profissão existe é porque tem alguém precisando dela”, respondeu tia Laudêmis deste lado da linha. A moça que ligou talvez não tenha se ligado tanto na resposta que recebeu, mas, quando atravessei a sala e fui atravessado por aquela frase, uma luz acendeu na minha mente! Anotei imediatamente cada palavra, enquanto agradecia minha tia querida. “Obrigado tia, precisava ouvir essa frase hoje! Brilhante!!!”. Ela riu e eu sai correndo pra escrever esse texto. 

Se uma profissão existe é porque alguém precisa dela. Pra que um médico se não existem doentes? Pra que uma meretriz se não existem pervertidos? Pra que um conselheiro se não existem perdidos? Pra que um governante se não existe desordem? Pra que um artista se não existe feiura? 

Se uma coisa existe, da sua performance alguém terá algum beneficio.

Se é intrinsecamente boa ou má, é assunto para outra ligação. Por enquanto, reverbera a frase simples e verdadeira de tia Laudêmis: “Se uma profissão existe é porque tem alguém precisando dela”.

E você: precisa de que?

 

M.

Jorge Ben  quer salvar velhos, flores, criancinhas e cachorros

Jorge Ben quer salvar velhos, flores, criancinhas e cachorros

Postado por em jul 9, 2014 | 5 Comentários

Quando a mística de Jorge Ben se chocou com o cotidiano.

 

A série “símbolos da espiritualidade na MPB” é retomada para apresentar uma canção do hit maker Jorge Ben Jor. Se você chegou agora, precisa saber que há alguns meses falamos das cem canções presentes na famosa lista que a revista Rolling Stone fez em 2007; a lista dos 100 maiores discos da música brasileira. Esses discos foram sistematicamente catalogados pela pesquisadora, socióloga e mestranda em ciências sociais, Sarah Ferreira de Toledo, a pedido do Nossa Brasilidade. Levou-se em conta as palavras de vocabulário religioso ou espiritual. De certa forma, com essa série, estamos apresentando uma outra forma de ler a nossa música brasileira. Estamos mostrando um repertório que toca a transcendência, que é religioso no seu linguajar, mas que não é litúrgico, portanto, não atende demandas eclesiásticas. Uma canção que confessa a fé, mas que não toca nos cultos;  é dos palcos e das ruas.

Hoje, trouxe uma que está presente em outras listas, mas o que importa é que cabe perfeitamente na série “símbolos da espiritualidade na MPB”. Apreciem a oração de Jorge Ben que vai da invocação do Deus todo poderoso lá no céu (só no céu?) ao cotidiano inevitável onde estão velhos e flores. Seria possível um encontro entre o infinito e o temporal? Qual a relação entre a eternidade, a luz, as criancinhas e os cachorros?

 

Velhos, flores, criancinhas e cachorros   
De: Jorge Ben Jor

Intérprete: Jorge Ben Jor

Disco: Solta o pavão
Gravadora: Universal Music

Ano: 1975

Deus todo poderoso eterno pai da luz, da luz
De onde provem todos bens e todos dons perfeitos
Imploro vossa misericórdia infinita, infinita
Deixai-me conhecer um pouco de vossa sabedoria eterna
Aquela que circunda o vosso nome
Que criou e fez que tudo faz e conversa tudo
Fazei-me digno enviando do céu prá mim prá mim
Imploro por vós e por Jesus Cristo, por Jesus Cristo
A pedra celestial angular miraculosa, miraculosa
Estabelecida por toda a eternidade
Maravilhosa, maravilhosa
Que comanda e reina convosco
Que comanda e reina convosco
Meu Deus todo poderoso
Meu Deus todo poderoso
Mas eu preciso salvar os velhos, eu preciso salvar as flores
Eu preciso salvar as criancinhas e os cachorros.

Rascunho de uma Genealogia

Postado por em mai 18, 2014 | 18 Comentários

O que, onde e como penso a minha relação com a cultura brasileira.

 

O multifacetado povo cristão que habita nas terras continentais do Brasil é constituído por incontáveis grupos religiosos – estimados em 20 grandes denominações e diversas outras placas diluídas entre os pentecostais. No momento, parece predominar as correntes teológicas reformada (calvinista e arminiana), da prosperidade (especialmente entre os neopentecostais) e a teologia da missão integral, além, é claro, da teologia católica romana e sua versão popular. Cada um desses grupos tem uma forma de se relacionar com a esfera das artes, com seu próprio acervo de obras litúrgicas, de propaganda e de entretenimento.

Em 2004 comecei a viajar como músico remunerado pelo Brasil a fora. Eu e outros amigos formávamos a banda de apoio da cantora evangélica Heloísa Rosa. Enquanto me esforçava para ser um mediano tecladista, estava sem saber, ampliando meus horizontes espirituais a medida que conhecia diferentes comunidades de fé reunidas em diferentes igrejas, de todos os tamanhos e tipos, espalhados pelo país. Logo percebi que cada um desses grupos não era um mundo em si mesmo. De uma forma ou de outra estavam na cidade vivendo suas vidas e convivendo entre crentes e descrentes, numa sociedade plural onde cerca de 90% dos cidadãos se dizem cristãos. Fui gradualmente me aproximando da tradição reformada calvinista e encontrei nela as categorias para explicar minhas inclinações intramundanas, proféticas e não panfletárias.

Quando criamos a banda Palavrantiga no final de 2007, lançando nosso primeiro trabalho em Junho de 2008, eu já estava – nesse tempo – bem mais íntimo do pensamento neo-calvinista holandês. Tendo sido apresentado a ele pelos amigos Rodolfo Amorim e Guilherme de Carvalho. É nesse momento que fica mais patente a vocação para a cultura – entendendo a nossa comunidade de fé local como ponto de partida para uma arte brasileira tecida na Esperança. Encontrava o chão de uma tradição cristã milenar, mas ainda não sabia como traduzir isso para o português cantado nas ruas. Os holandeses eram legais mas não falavam da realidade do meu povo. Descobri uma mata virgem, fechada, difícil, insegura, perigosa. No entanto, tive certeza que deveria entrar, abrir caminho, me reencontrar por inteiro com a cultura popular depois de anos caminhando entre teólogos e pastores, nos templos em companhia de liturgistas e avivalistas.

Antes disso, havia reconhecido a necessidade de superarmos o dualismo gospel/secular, como é entendido nessas terras. Isso me ajudou a construir novas categorias de pensamento para relacionar fé cristã e cultura brasileira. Encontrei na linguagem poética uma porta de acesso entre espiritualidade e beleza. Descobri Adélia Prado numa revista de avião dizendo que arte e religião são braços de um mesmo rio. Rubem Alves chegou pra me conduzir à Guimarães Rosa, Kazantzákis, Nietzsche, Hermann Hesse… e àquelas suas próprias e boas palavras de mineiro. Então, anos depois ao ler Schaeffer, Dooyweerd e Rookmaaker, o que fiz foi categorizar o anteriormente lido, cantado, viajado e vivenciado pela minha alma.

O conceito arte brasileira de raiz cristã emergiu desse reencontro entre um cristão reformado e o repertório popular experimentado desde o berço familiar, que agora ganhava novo interesse a medida que eu descobria as confissões e as analogias tão próximas das narrativas bíblicas. Púlpito e palco continuavam bem distintos, o que mudava era a distância. Templo e rua permaneciam diferentes enquanto deixavam de ser opostos. A mensagem que saia do altar da minha igreja encontrava uma relação simbólica com as maneiras de cantar o cotidiano da vida.

Tentei copiar o antropólogo e linguista Don Richardson naquele percurso narrado em o Totem da Paz, dividido em três partes: “O mundo dos Sawis”, “Dois Mundos se Encontram” e “Um mundo transformado”. Mas vi que não podia fazer isso. Esbarrei num problema: a cultura brasileira não se mostra como um mundo isolado do Evangelho, nem mesmo o Evangelho foi confinado em templos nesses 500 anos de presença cristã nas terras tupiniquins. Diferente dos Sawis de 1962 que nunca haviam visto um homem branco e sua religião cristã, os brasileiros dos anos 2000 foram formados nela! Estava diante de uma sociedade filha do cristianismo! Ou melhor: o brasileiro é filho dos cristianismos, dos diferentes cristos, feito de cristãos de todos os tipos.

O que não deixei de copiar do meu herói canadense foi a ideia de analogia da redenção, quando costumes locais apontam verdades espirituais, ou quando verdades espirituais são aplicadas aos costumes locais. É por isso que consigo cantar Xodó de Dominguinhos e All We Need Is Love dos Beatles depois de ler Eclesiastes, Drummond e Gabriel Garcia Márquez sem nunca me esquecer que faço isso diante da face de Deus tocando a verdade da solidão tal como ela é.

 

Marcos Almeida
em Belém do Pará

18 de Maio 2014

Embarcação

Postado por em mai 6, 2014 | Um comentário

Todo encontro é mágico;

um tipo raro de milagre.

Vivemos nas distâncias,

nas ilhas sem ponte de um mundo vasto.

Quem faz embarcação

atravessa a si mesmo,

toca um amigo,

paga o preço,

descobre o mundo.

(Marcos Almeida)

Quando Sunshine anunciou Gabo

Quando Sunshine anunciou Gabo

Postado por em abr 18, 2014 | Sem comentários

 

Era meu primeiro ano na Universidade do Estado de Minas Gerais, cursando a licenciatura na qual sete anos depois recebi o raro título de jubilado em música. Num dia, que não me lembro qual, meu amigo Sunshine – dele não me esqueço – recitou para o nosso grupo de amigos, em tom nada solene, o início de seu livro favorito:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano
Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.”

Naquele dia bastaram as primeiras palavras de Cem Anos de Solidão para eu descobrir a grandeza de Gabriel García Márquez.