02 de Fevereiro / Tasso da Silveira

Postado por: em fev 2, 2012 | 2 comentários

Trinta e três

 

A chamada ala espiritualista do modernismo é composta de nomes como Cecília Meirelles, Murilo Mendes, Tristão de Ataíde, entre outros que valorizavam a religiosidade dos poetas.  Mas nessa hora, vamos receber no nosso sítio Tasso da Silveira – nome muito respeitado dentro dessa ala.

 

Ele acabou entrando nos noticiários do último ano de forma indireta, por causa da catástrofe de realengo. A escola municipal que recebeu aquele psicopata, para  inimaginável crueldade,  é batizada com seu nome; Tasso da Silveira.

 

Diante das catástrofes qualquer poesia se torna palavra oca. O excesso de realidade absurda, o terror descabido, toda essa loucura, extrapola as tentativas de representação. Fazer poesia depois daquele dia é ainda mais absurdo!
Sim. Porque fica claro a diferença da religiosidade do louco-terrorista e do poeta-espiritualista: para o louco a religião é morte, é guerra, para o poeta é a vida transbordando pois se encontrou com a Esperança! Essa que não nos entorpece para a realidade, mas, pelo contrário, faz em nós lucidez e ajusta em nós o rumo.
Vamos ouvir o poeta em dois trechos preciosos:


Da minha vida ao fim da caminhada

vejo-me agora numa selva escura,

não como a do Alighieri dominada

pelas três feras da hórrida aventura:

 

uma selva que, embora de amargura,

é por sinais de Deus iluminada:

há brancos trêmulos na altura,

leva-me pela mão a muito amada.

A infinita esperança deste instante

(Senhor, Senhor! Bem sei que nunca pude

fazer da clara estrada a via eterna),

 

é que para o meu passo vacilante,

esta selva de aspecto triste e rude

seja o caminho da Mansão Paterna.

 

(Soneto 6, Regresso à origem– Tasso da Silveira)

A ver uma realidade total

                *

Nós temos uma visão clara desta hora.

Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.
E de vitória do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos, também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

(…)

A arte é sempre a primeira que fala para anunciar
o que virá.
E a arte deste momento é um canto de alegria,
uma reiniciação na esperança,
uma promessa de esplendor.

Passou o profundo desconsolo romântico.
Passou o estéril ceticismo parnasiano.
Passou a angústia das incertezas simbolistas.

O artista canta agora a realidade total:
a do corpo e a do espírito,
a da natureza e a do sonho,
a do homem e a de Deus,

canta-a, porém, porque a percebe e compreende
em toda a sua múltipla beleza,
em sua profundidade e infinitude.

E por isto o seu canto
é feito de inteligência e de instinto
(porque também deve ser total)
e é feito de ritmos livres
elásticos e ágeis como músculos de atletas
velozes e altos como sutilíssimos pensamentos
e sobretudo palpitantes
do triunfo interior
que nasce das adivinhações maravilhosas…

O artista voltou a ter os olhos adolescentes
e encantou-se novamente com a Vida:

todos os homens o acompanharão!

(Intróito-  Definição do Modernismo Brasileiro, 1932 -Tasso da Silveira)