Da Impossibilidade de uma Cultura Secular

mar 27, 2014 | 5 Comments

por RUAN BESSA

 

Nesse mundo de Deus, diga-se de passagem, supostamente pós-moderno, pós-Deus, pós-cristão, pós-industrial, pós-tudo, a coisa que não é pós é a religião, mesmo que a elite intelectual negue o fato evocando Nietzsche, Freud ou Dawkins e suprima tal afirmação em nome da neutralidade ou objetividade da ciência e de uma vida não religiosa. Obviamente, preciso esclarecer o que é religião para sustentar a ideia. Primeiro é preciso dizer que há mais do que crença religiosa envolvida na religião. Há ritos, práticas, éticas e assim por diante. Entretanto, seus significados são fornecidos pela crença religiosa e apesar da grande complexidade do tema, no que diz respeito à crença religiosa, Platão, Aristóteles, Calvino, Mircea Eliade, Hans Kung, C. S. Lewis, Paul Tilich, Herman Dooyeweerd, Roy Clouser entre outros me dão cobertura, pois a eles volto para uma definição. No cerne de toda religião há a crença em algo ou alguém que seja divino, perceba que não estou falando o que é esse algo ou alguém (o Deus Cristão, a matéria, leis eternas de caráter lógico ou matemático), mas sim o seu status. Em toda religião o divino é o alguém ou algo que tenha realidade incondicional, ou seja, é auto-existente, a realidade não-dependente enquanto todo o resto depende dela[1]. Para usar um exemplo de Roy Clouser[2]: é como discutir sobre quem deve ser o presidente e qual o papel do presidente. Há muitas opiniões sobre quem deve ser o próximo presidente do Brasil, mas há aceitação universal de que seu papel é governar e não roubar, por exemplo. Assim, o que deve ocupar a posição de divino é a questão amplamente divergente, mas o significado do que seja divino, seu status, é o ponto universalmente aceito. O teste fatal vem agora. Tente achar alguma visão de mundo que não dependa e não assuma tal realidade que seja a origem não-dependente da qual toda resto dependa. Ateístas e materialistas também não podem escapar de tal fato. Talvez se irritem porque, caso você tenha me entendido até agora, nesse momento estou chamando-os de religiosos, não só eles, mas a humanidade. Dito isso, podemos avançar para uma olhar mais prático em termos de cultura.

 

A atividade cultural do ser humano é sempre orientada e direcionada pela crença religiosa nesse “divino”, seja lá o que ou qual for. Uma comunidade humana tem sua fé ancorada nessa realidade, seja de forma consciente ou não, mesmo que negue que tal confiança é religiosa, dizendo que é científica ou racional. Assim, fazendo a matemática, veremos que o resultado é a impossibilidade de uma cultura secular. Obviamente, me refiro a secular enquanto a negação das bases religiosas da cultura. Imagino que Durkheim se lesse esse texto, provavelmente arrancaria os cabelos ou me chamaria de tolo e me indicaria uma ou duas de suas obras. A essa altura a relação entre cultura e religião já se põem no horizonte. Não é a toa que a cultura, em suas origens etimológicas, designa cultivo que por sua vez está tão próximo de culto quanto os dedos estão das mãos e os templos das ruas. Logo, nesse sentido não há tal coisa como artista religioso ou artista secular como se um tivesse crença religiosa e o outro não. Como dito acima todos as temos. Afunilando mais ainda para aplicações práticas em termos de categorias músicas, se usarmos a crença do artista para categorizar as prateleiras de vendas de um grande shopping da sua cidade só poderíamos ter música gospel, umbanda, materialista ou quem sabe pagã, panteísta ou cristã. Obviamente, isso não faz sentido. As categorias deveriam seguir critérios artísticos e estéticos. Assim, a pergunta obvia é o porquê a prateleira gospel está lá então. Vou dar três razões: um conceito de religião estragado, com se a religião fosse um dos compartimentos da vida, que alguns têm e outros não, ao invés de perceber que a religião é a orientação total de uma vida. Segundo, a dicotomia fato/valor, sagrado/secular fruto da ideia estragada de religião, pois essa divisão é tão mitológica quanto Zeus. Por fim, os interesses de todos os lados numa fatia “religiosa” do mercado. Enfim, como disse Henry Van Til: “o conflito na cultura não é entre fé e cultura, religião e razão. Mas, desde que toda cultura é fundamentada na crença religiosa, o conflito é entre fés divergentes”[3].

 


[1] CLOUSER, Roy. The Myth of Religious Neutrality: An Essay on the Hidden Role of Religious Belief in Theories. Notre Dame, Notre Dame University Press, 1991.

[2] Roy Clouser é doutor em filosofia pela Universidade da Pensilvânia.

[3] VAN TIL, Henry. The Calvinistic Concept of Culture. Grand Rapids, Michigan, 1972.

 

UMA OUTRA BRASILIDADE

mar 24, 2014 | 24 Comments

Do que estou falando esse tempo todo, mas você ainda não entendeu!

 

A preguiça intelectual prefere chamar de gospel tudo aquilo que é confissão evangélica na cultura brasileira, sem se dar conta de que bem antes da grife existir já havia uma Igreja. Certamente, quando falo “Igreja” não penso em templos e capelas apenas, mas, sobretudo em pessoas que experimentam o Evangelho na vida.

Os preguiçosos ignoram: a tal categoria de mercado ainda não chegou aos trinta. Fazem pouco caso da comunidade de fé da qual pertencemos. Nossos pais nos legaram uma família de dois milênios. Eles atravessaram gerações, errando e acertando, e chegaram ao Brasil há mais de quinhentos anos! Então, que influência é essa, de fato, na formação do nosso país? É preciso ver essa herança sem as lentes embaçadas da indústria do entretenimento, para além dos limites religiosos e acadêmicos, aproveitando as diversas cores e linhas denominacionais que de fato ajudaram a formar essa grande e singular obra de tapeçaria que hoje é pisoteada pela idealização de um Brasil sensualizado, trapaceiro, exótico, aristocrático, místico, racista, bêbado e baderneiro. A preguiça os impede de ver além do clichê. Estamos puxando esse tapete…

Eu chamo você para ver de outro ponto. Te convido a abrir outras janelas. A duvidar do que lê nos jornais. A duvidar dos livros de sociologia. Proponho aqui uma mudança na abordagem do que é identidade brasileira.

Nos últimos cem anos e, principalmente, depois da semana de arte moderna (1922) essa abordagem é dada por uma elite não cristã e anticristã, que olha para os crentes como “os outros”. E se pedíssemos agora para “os outros”, nós, os crentes, que construam essa abordagem; qual brasilidade será contada por esses que creem? Como será o Brasil de dentro “dos outros”?

Vejo os crentes sendo violentados covardemente pela lógica de entretenimento religioso, por um lado, e pela censura aristocrática e hipster no front oposto.  É pela liberdade deles que grito. Grito por mim, em nome dos nossos pais, em respeito a sua herança e investimento. Grito inspirado em Cristo, instigado por Cristo, que não se dobrou nem diante da fúria dos sacerdotes cegos e corruptos, nem muito menos diante do governo tirânico e opressor daquela elite romana. Nem preciso falar de como Ele tratou os gregos… Grito a brasilidade de quem segue o Cristo, de quem voluntariamente se doa, de forma autêntica, sendo coautor desse movimento de fé, esperança e amor no meio do mundo. Movimento que alcançará os nossos filhos – se Ele antes não voltar – os brasileiros dos outros.  Os outros brasileiros de nós mesmos!

 

Marcos Almeida

O Liturgista e o Trovador

O Liturgista e o Trovador

fev 24, 2014 | 12 Comments

 

“Isso e aquilo” não é o mesmo que “isso ou aquilo”. A segunda ideia é oposição, uma múltipla escolha, a primeira é somatória, é ampliação: “isso e aquilo” revela a capacidade que temos para distinguir as coisas e mesmo assim mantê-las integradas.

Gosto de distinguir as coisas no sentido de discernir, não de isolar. Porque, embora distintas, todas as coisas estarão sempre conectadas. Isso com aquilo e aquilo com isso.Todos objetos que vemos de alguma forma tocam o mesmo chão da vida, se encontrando em algum ponto: a unidade só é possível por que existe comunhão: isso e aquilo, aquilo com isso, a diversidade se abraçando.

Mas, pode um trovador, cancionista e poeta abraçar um liturgista, pastor e conselheiro? O primeiro é da rua, dos palcos e janelas. O segundo ama as capelas, o púlpito e os vitrais. Um pensa a música como vértice poético comunitário, o outro horizontaliza os versos para tocar pessoas. O Trovador é só e o Liturgista… também é. Um se realiza no festejo da rua, o outro na confraria do templo. Deixam de ser sós quando alguém os ouve. Deixam de ser repartidos quando a rua recebe os irmãos do templo e quando o templo recebe os foliões da rua. Quando o Trovador descobre os vitrais e o Liturgista escancara as suas próprias janelas.

 

Marcos Almeida

Troubadour - George Stefanescu (1914 -2007 )

Troubadour – George Stefanescu (1914 -2007 )

A DELICIOSA ANTÍTESE APOCALÍPTICA DE TOM ZÉ

fev 12, 2014 | 2 Comments

 

Na herança cristã, o livro do Apocalipse é bastante controvertido. Desde as discussões iniciais sobre se deveria ou não ser incluído no cânon do Novo Testamento, até sua comparação com os outros textos de literatura apocalíptica, através de vinte séculos de história ele tem tido as mais diversas interpretações. Nas idades moderna e contemporânea, no entanto, as conclusões sobre ele têm sido as mais mirabolantes. De um livro escrito para encorajar os cristãos sob intensa perseguição romana, um texto cujo tema central era a esperança, o Apocalipse passou a ser sinônimo de catástrofe e de destruição, de escapismo e de alienação.

Aí vêm os nossos amigos poetas da MPB, pra nos ajudar a resgatar valores que nos são tão caros e que incluem a felicidade vindoura e a esperança escatológica, como no caso da linda canção do Tom Zé, Menina Amanhã de Manhã, que afirma categoricamente que a felicidade irá desabar sobre os homens, em contraste agudo com a morte e a destruição prenunciadas pelo texto sagrado e que desabam sobre a humanidade. E mais, a felicidade como um bem inexorável, inevitável, quase que imposto à vida, do qual ninguém pode (nem gostaria de) escapar. E terminando com um convite sutil: “não queira dormir no ponto”. A felicidade está à mão. Não deixe que ela vá embora, menina.

Pra não terminar sem fazer justiça ao Apocalipse, o contraste entre a canção e o livro não é tão gritante assim: apesar de falar sobre destruição e morte, o livro termina falando de vida, de paz duradoura, de cura para as nações, de felicidade enfim.

 

 

Menina amanhã de manhã
Quando a gente acordar
Quero te dizer que a felicidade vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens

Na hora ninguém escapa
Debaixo da cama, ninguém se esconde
A felicidade vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens

Menina, ela mete medo
Menina ela fecha a roda
Menina não tem saída
De cima, de banda ou de lado
Menina olhe pra frente
Oh! Menina, tome cuidado
Não queira dormir no ponto
Segure o jogo, atenção
De manhã…

por Jorge Camargo

Ouça abaixo a gravação original feita por Tom Zé no genial “Estudando o Samba” de 1976.

Jorge Camargo é músico, professor, tradutor (juramentado, em inglês), intérprete de conferências e escritor. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. É também sócio-proprietário da empresa Quase a Mesma Coisa, dedicada a tradução e interpretação, em diversos idiomas.

Tem mais de 30 anos de experiência musical, como compositor e intérprete. Pesquisa a presença, a influência e a importância do sagrado na música popular brasileira e as interfaces entre a arte, a cultura, a filosofia e a religião.

Quando me descobri artista brasileiro

fev 8, 2014 | 33 Comments

 

Quando me descobri um artista brasileiro e que a fé cristã, como os nossos pais me ensinaram, é começo e não adereço, as outras expressões de identidade artística tornaram-se mais irreais ainda para mim. Qual modelo de artista temos para imitar no Brasil? Ao menos para nos inspirar?

Eu escrevo música como um artista brasileiro, mas não quero fazer isso seguindo as trilhas espirituais e ideológicas que temos hoje. E nesse espaço que abri na internet, o Blog Nossa Brasilidade, é como se eu tivesse investigando um caminho de mentores – uma tradição espiritual pra me filiar. Estou o tempo inteiro procurando um mestre, um maestro, um modelo imaginário que seja!

Mas ainda não encontrei quem eu gostaria de imitar quando descobri que sou um artista brasileiro e não um artista da religião evangélica. Eu admiro muito o Bob Marley (Jamaica) , o Bono (Irlanda), Stevie Wonder (USA), Johnny Cash (USA), mas olhando pra cá, me faltam esses mentores/modelos. Sim! Temos o Roberto Carlos, Nelson Cavaquinho, Elomar Figueira de Mello e milhares de canções que tocam aquilo que vejo neste mundo – e são essas canções a comprovação de tanta coisa falada aqui. Mas esses artistas não são exatamente aquilo que eu gostaria de ser. Sim! Temos Tasso da Silveira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Quintana, Adélia! Ah, temos Adélia! Mas, onde está a trilha da música pop que nos deu uma música brasileira realista, ungida, generosa, exuberante e aberta para o Total?

Aqui escrevo tentando formar esse modelo imaginário… Escrevo como que construindo categorias para a confecção de uma plataforma que sustente uma nova canção. Estou procurando respostas…

 

 

Marcos Almeida

Vila Velha, ES.